por Lucas Schultz
.................................................................................................................................................
Este texto começou com uma linha de pontos porque eu
simplesmente não soube como começá-lo de outra maneira. Eu sempre curti
reticências. Logo quando aprendi a usá-las, escrevia tudo com elas... Achava que era chique... Puro estilo...
Pompa... Efeito... Etecetera... Depois eu cresci e entendi que estava mais para
o brega, mesmo. A verdade é que comecei meu texto com reticências infinitas
porque me deu um branco (sinceramente, foi bem mais do que isso: foi tipo
aquele espasmo convulsivo de quando você está no mais maravilhoso sono, no
breu, e de repente alguém acende uma luz fluorescente e você acorda recitando
toda sorte de palavrões que conhece. A pupila fica do tamanho de um átomo e dá
tilt no seu cérebro). Meu branco foi a la Saulo (Paulo, para os íntimos). Nessas
horas, quando o processo criativo simplesmente buga e você se sente estéril, aí
dói. Dói na alma. Ainda mais quando você costumava ter uma veia criativa
notável (na real, só você e sua mãe nota[va]m esse suposto dom, mas que seja).
Quando dá branco, dá vergonha.
Passei um tempo sem escrever. É que quem escreve, gosta de
escrever bonito, escrever bacana, sem precisar temer críticas. E se você não
está inspirado, não rola. A verdade é que pouquíssimas pessoas conseguem fazer
poesia com qualquer coisa que surge na frente, feito um Bashô ou um Emicida
(sério, leia esses caras!). No que diz respeito à escrita, sou muito
atmosférico. Qualquer coisinha atrapalha meu processo criativo (quem vê,
jura...). Não é que eu seja um grande escritor, muito pelo contrário: tenho uma
senhora dificuldade para escrever. Ainda mais quando o cenário não ajuda. Como
assim não ajuda? Pois bem: andei tendo uma desilusão, um baque, um piriri
emocional. No comecinho desse ano, deixei morrer um relacionamento que tinha
construído com cuidado, Deus, empenho e amor (por mais que amor seja algo
difícil de explicar, quanto mais quantificar). Sofri em silêncio e fiz de mim
um ser autótrofo (lembra das aulas de biologia?), autossuficiente, vivendo só
dos meus pensamentos e decisões. Fugi do convívio social, evitei o familiar e
me afundei em mim. Mas aí acabaram as férias.


