Para Lyndon A. Medina
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Ok, muito provavelmente essa não seja a melhor forma de se começar
um texto. A ideia original era que eu contasse o meu chamado, ou algo do tipo.
Eu espero estar fazendo isso da maneira correta, mas esses últimos dois anos
foram um looping bastante inesperado e nauseante (talvez o texto fique igual,
enjoativo).
Pra ser justo com você desde o início, acho interessante já deixar
claro: jamais gostei da ideia de ser pastor.
Na verdade, num passado não muito distante, em que eu era um
pouco mais infantil do que hoje, meu sonho era ser pastor. Brincava de pregar,
batizar e até mesmo exorcizar. Eu achava graça nisso (garanto que você já teve
alguns prazeres ridículos e culposos também). Eu cresci, porém, dividindo essa
paixão com outras tantas paralelas. Bombeiro, arquiteto, jornalista e escritor.
Sonhei com tudo isso.
Conforme fui crescendo e pecando, descartei a ideia do
ministério pastoral. No decorrer da minha adolescência, permiti que, junto aos
pelos corporais e complexos de inferioridade, crescesse o meu preconceito com o
pastorado. E, por mais tosco que soe, o que mais me enojava na profissão (fora os
inúmeros espécimes mal vestidos que eu já havia conhecido no ramo) era
justamente a ideia de acordar às três da matina com um chamado para exorcizar
alguém. Não sei porque o exorcismo me cativava tanto. Podia jurar que minha
infância foi normal. Enfim, eu desenhava essa situação “macabra” na cabeça e
prontamente vomitava promessas de que jamais seria pastor. Mas a vida tem
dessas. Te dá uma rasteira e já era: muda tudo.
Em 2012, no meio do ano, eu estava desesperado. Estavam para
chegar as férias de julho e eu queria muito me divertir (quem não?). Mas eu não
tinha para onde ir... Em casa, havia problemas demais. Demais mesmo: caso de
polícia, literalmente. E, senão em casa, onde poderia eu dedicar-me à tão
merecida vagabundagem? Comecei a ficar transtornado. Não havia parentes nem
amigos que pudessem me dar segurança/hospitalidade/casa-comida-e-roupa-lavada
de forma satisfatória e não constrangedora. Onde eu encontraria abrigo para um
mês inteiro, sem me sentir (tampouco ser) um estorvo?
Surgiu um amigo chamado Lyndon. Eu já o conhecia bem, mas
andávamos distantes. Porém, ele veio com uns papos muito loucos sobre
colportagem (detalhe: ele liderava uma equipe). Até então, eu detestava
colportagem. Ele disse que seria bacana, um lugar cheio de gente divertida e
missionária. Mas eu detestava colportagem. Ele disse que era o sonho de Ellen
White pra todo jovem. Eu detestava colportagem. Disse também que eu ainda
ganharia uma graninha. Eu detestava colportagem. E que seriam férias boas pra
eu me apegar mais a Deus. Eu detestava colportagem. Por sim, quando o Lyndon
disse que eu não passaria fome, eu considerei a ideia. E fui.
Eu havia tido uma experiência bastante ridícula com a
colportagem, não fazia muito tempo. Havia fugido dela, me escandalizado com
algumas situações feias que tinha visto numa campanha pouco estruturada que eu
tinha tido o desprazer de conhecer. Quando eu falo em fugir, é fugir mesmo
(você pega suas trouxas e sai correndo, sem olhar pra trás, vestido de tal
forma que não te reconheçam; mais tarde, você não atende telefones nem responde
e-mails e escapa de qualquer conversa sobre o assunto do qual você fugiu; se
tiver oportunidade, você muda de cidade e nome, ou pelo menos inventa um
apelido que pegue – e não tenha nada a ver com sua verdadeira identidade).
Recomecei minha vida isento das lembranças daquela malsucedida campanha. Generalista,
como bom humano que sou, havia decidido que jamais faria de novo um programa de
índio desses: toda campanha de colportagem, a meu ver, não prestava.
Lá estava eu, agora, pronto a me aventurar mais uma vez
(“pronto” não é o mais coerente dos adjetivos). Pra piorar um pouco, voltei à
colportagem em grande estilo. Na mesma cidade em que havia amargado o fracasso,
anos antes: Novo Hamburgo, RS (rsrsrs). Quer mais? No mesmo bairro. Quer mais?
As mesmas ruas. Quer mais ainda? Vai ficar querendo, pois as coincidências
acabam aí. Nas férias julinas de 2012, tudo foi diferente. Amém?
Passei um mês maravilhoso, as férias mais legais que já
tive. Me apeguei com Deus, com uns amigos inusitados (Ramage Maher e Servet
Dema, eu amo vocês!) e com um conceito novo e muito incomum, até então, pra
mim: “madrugadas de oração”. Todos os dias, durante a campanha, eu e o Lyndon
orávamos às quatro da matina. Era tenso. A gente ficava cansado demais das
caminhadas rotineiras e, quando orava, começava de joelhos, logo mais estava
prostrado (Mecca style) e, em seguida, deitado. Mesmo. Muitas vezes dormíamos.
Era um desastre. Mas a gente foi persistente. Depois de um tempo, desenvolvemos
técnicas (orar em voz alta, um de cada vez; nunca orar deitado; se a dicção de
A ficar arrastada, B dá uma cotovelada em A). Houve momentos em que me ajoelhei
e, ao invés de orar, contei de um a quinze. Até hoje não sei o porquê.
O fato é que, de tanto orar, gostei de orar. E as madrugadas
mudaram minha vida. Por dois motivos: consegui forças pra superar a densa
situação que vivia com a família (posteriormente, houve a reconciliação) e
recebi meu chamado. Pra Teologia. Nenhuma das duas bênçãos foi
recebida/alcançada de forma fácil ou amistosa. Mas, como o propósito desse
texto é contar apenas uma das duas histórias longas e monótonas, vamos ao que
interessa.
Fiquei pasmo. Horrorizado. Senti bem forte (tipo uma
voadora) no meu coração que deveria ser pastor. Eu achei que fosse um delírio,
fruto da combinação da fadiga exagerada com uma “overdose” de espiritualidade
(ambos, para mim, eram inerentes à colportagem). Depois de muito matutar,
contei ao Lyndon. Ele falou muito calmamente, olhando bem nos meus olhos, como
um médico que vai contar ao paciente que este pobre infeliz moribundo vai,
mesmo, morrer: “é, piá, não quero te assustar, mas acho que pode ser Deus te
chamando, hein”. Ele falou tão seguro, clínico, que eu quase caí pra trás.
Orei, jejuei, pesquisei, conversei com pessoas
espiritualmente credenciadas, conversei com pessoas genuinamente céticas,
conversei com cachorros, aves e ventríloquos, e tudo apontou à teologia. A
princípio, eu queria confirmar que estava louco, que era alguma disfunção
temporária, coisa do demo, sei lá, mas não rolou. Parecia, realmente, que era Deus
me chamando.
Voltando ao Unasp, com algumas histórias, dinheiro e um
dilema, resolvi partir pro sobrenatural (a situação pedia um drama). Orei
intensamente testando a vontade de Deus e bati o pé: queria sinais. Obtive incontáveis.
O fato é que não parava de surgir pessoas desconhecidas, que
continuam desconhecidas até hoje, surgindo na minha vida só pra dizer que eu
tinha que fazer teologia. Sonhei com o chamado. Tive pessoas que apareceram no
momento oportuno para me acalmar e dizer que confiasse e esperasse em Deus. E
quando fui contar à minha mãe, ao meu pai, à minha namorada e ao meu melhor
amigo, todos eles já sabiam. Deus havia contado a todos os meus pilares que eu
faria teologia. Todos já sabiam antes de mim. A essa altura, comecei a
desconfiar que realmente poderia, quem sabe, talvez, possivelmente, haver mesmo um chamado de Deus pra mim.
Mais oração, jejum e conversas com pessoas espiritualmente
competentes (Amilton Menezes, Jader Santos, Martin Kuhn, Osvair Hunglaub e
Lyndon – como me ajudaram!) para me aconselhar e orar comigo. No meu coração,
eu agora aceitava a situação, mas estava tremendo feito vara verde. Pedi que
Deus me consolasse.
O mais marcante nesse momento de afetação foi quando falei
com minha mãe sobre o chamado. Ela, então, cheia de carinho, me contou algo que
eu não sabia até então, sobre quando me deu à luz (expressãozinha bonita, essa).
Até engravidar, ela fora diagnosticada como estéril. Muita
insistência, muita oração, tempo. Num certo momento, depois de muita tentativa
e fé, veio a gravidez. Na gestação, minha mãe se cuidou demasiadamente e correu
tudo bem. Porém, no dia do meu nascimento, ela não teve dores de parto. Isso
era estranho, incomum. Por isso, demorei muito a nascer (foi um parto forçado)
e tive uma série de complicações. Minha mãe e os médicos se desesperaram e,
diante da minha provável morte, ela implorou a Deus por minha vida. Naquele
momento angustiante, me ofereceu a Deus, dizendo que eu já não era dela, e
pediu que O Senhor me salvasse para ser um pastor. Naquele dia, diante de Deus,
dos médicos e de um bebê roxo, ela prometeu que me daria uma educação especial,
pois eu seria um pastor. Eu vivi, e não tive sequela nenhuma. Depois disso,
minha mãe nunca mais engravidou. E nunca me contou nada dessa história, pois
Deus é que ia me chamar, no tempo certo.
(É interessante como o choro precede as grandes decisões que
tomamos na vida.)
Depois disso, descrente e relutante que sou, pedi uma última
resposta a Deus. Pedi que me ajudasse a passar no vestibular e conseguir uma
bolsa de estudos. Na época, o vestibular, que já era naturalmente concorrido,
me trazia mais um agravante. Eu estava trabalhando na produção de um
documentário chamado Opostos, que consumia diariamente cerca de treze horas de
trabalho (duro). Quando me sobrava um tempo, era pra dormir/comer. Nessa
situação, me sentia totalmente incapacitado pra estudar. Porém, Deus é
surpreendente. Fiquei entre os 20 primeiros colocados no vestibular. E, depois,
óbvio, consegui a bolsa. O que mais poderia eu fazer, depois disso? Teologia.
Cá estou eu, agora, escrevendo sobre tudo isso e agradecendo
muito a Deus. Os milagres continuam, a todo instante, reafirmando o projeto de
Deus que é a minha trajetória. Que alívio saber que aceitei esse destino.
Deus é bom. E tem paciência com um servo desconfiado, sem
autoestima e pouco ambicioso como eu. Espero que Ele me use. E que eu seja um
pastor decente. Como é bom saber que, a despeito de tudo e todos, Ele me
separou para algo especial.
Mesmo quando não acreditei em Deus, Ele continuou a acreditar
em mim.
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| Schultz é formado em jornalismo e, qual Jonas, não pôde fugir de seu chamado. |

