por Lucas Schultz
![]() |
| "Essa vida é uma viagem, pena eu estar só de passagem."Paulo Leminski |
Você já deve ter percebido que eu
gosto de escrever sobre a minha namorada. Se não aprecia esse fato, sugiro
gentilmente que vá pentear macacos. Acredite: eles são absolutamente
penteáveis.
Estamos completando 50 meses de
namoro (eita Jesus maravilhoso) e fazendo de tudo para que os próximos 50 sejam
completos no matrimônio. Amo amar a ela. Mas hoje não vou falar de
assuntos açucarados.
Semana passada, viajei a Jacareí
(SP), onde minha querida mora, ajudá-la em sua primeira mudança (sozinha). Seus
pais, com os quais ela morou a vida inteira, foram transferidos para Curitiba
(PR). E ela, agora, iria morar sozinha.
Foi um recesso de dia das
crianças bastante proveitoso. Deu pra namorar, secar as lágrimas nostálgicas dela, ser seu auxiliar de cozinha, dar risada, assistir “A Culpa é Das
Estrelas”, ajudá-la no trabalho, entre outras atividades. Já que falei o nome
do filme, me dou o direito de opinar sobre ele: tem meia dúzia de boas frases,
mas é mais um filmeco adolescente, no estilo boy-meets-girl, só que revestido de melancolia (afinal, câncer é
algo que mexe com todos nós), uma fotografia hipsterizada e trilha fofa. Ah, e
o ator que faz o menino com câncer é muito, muito ruim. Eu e ela ficamos
o tempo todo torcendo para que o personagem dele tivesse um fim trágico
(desculpe a sinceridade). E o pior é que teve mesmo (spoiler é comigo mesmo).
Eu e a Dani rimos. Mas confesso que rolou uma certa emoçãozinha também. Falei
que o ator era ruim, mas em compensação, a atriz... Essa sim arrebentou: chorava
com gosto. Pronto. Aqui está minha crítica. Já sou quase um Rubens Ewald Filho.
Ou talvez um Marcelo Hessel mesmo, dada a minha chatice.
Prossigamos (você percebe a minha
dificuldade em manter uma linha de raciocínio? É que eu assisti muito Pokémon,
quando criança. Esse educativo desenho animado tinha muitos flashes, poderes
espalhafatosos e novas espécies de pokémons [não eram 150, apenas? Me sinto
traído], tudo isso piscando freneticamente na tela. O resultado é essa
ansiedade digressiva).
Durante o recesso, fiquei
hospedado na casa do Pr Laerte Lanza, que alugou a casa onde os pais daela moravam. Ela ainda estava acampada por lá, no segundo andar, pois
ainda não podia fazer a mudança. Fiquei no térreo (protegemos nossa reputação).
O Pr Lanza, um homem rechonchudo e muito bem humorado, dentre vários outros
conselhos, me deixou digerindo essa frase: “essa é apenas a primeira mudança; a
primeira de muitas que vocês ainda farão, a vida toda”. Isso me fez pensar.
A vida toda dela (filha de
pastor por excelência) foi marcada por mudanças. Ela encarou as diversas fases
da vida trocando de cenário. Minha querida tem um pouco de muitos sotaques, tem
amigos em tudo que é canto, tem um álbum fotográfico sortido de paisagens, tem
história pra contar. E tem um constante desapego – puro pragmatismo – que faz
dela uma menina que sofre, mas aceita facilmente os desencontros que a vida
proporciona. Ela chora, seca as lágrimas e faz as malas. Resignada.
Eu compartilharei uma vida com
minha futura esposa. E alguns muitos desencontros. Assim que chegar a um lugar,
farei de tudo para me adequar, absorver a nova realidade, mimetizar meu eu,
integrando-me ao ecossistema novo. Mas depois de um tempo, mesmo contra minha
vontade, terei de abrir mão de todo esse esforço, só pra mudar de ambiente e
mais uma vez buscar uma estratégia, um jeito de me adequar. Muitos serão os
lugares, as pessoas e os acenos de adeus. Melancólico? Sim, claro. Mas
esperançoso, também. É dessa riqueza de interações que o pastor enche seu
portfólio humano. Tudo isso confere maior alcance, maior preparo, maior
resiliência. E todas as coisas cooperam para o bem dos pastores.
Há quem ache maléfico um estilo
de vida nômade. “O que será de seus filhos?”, “Sua esposa não terá uma carreira?
Ela será sempre uma sombra sua?”, “Você não pensa nos seus familiares, não?”,
“Essa rotina sem chão ainda vai torná-lo impessoal”, dentre tantos outros
questionamentos oportunos, porém descartáveis. A vida do pastor e de sua
família é alicerçada na abnegação. De tudo eles abrem mão, basta precisar. Até
da vida cotidiana (como a conhecemos). A quem não consegue entender isso e fica
inconformado com a decisão (e abnegação) alheia, estendo a oportunidade:
macacos permanecem à espera de quem os penteie.
Esse é um bom momento para
meditar naquela bela música do Milton Nascimento com o Fernando Brant,
“Encontros e Despedidas”. A vida do pastor é assim: muitos ois e variados
tchaus. Tudo sem muito tempo para o deslumbramento, ou para o dramalhão. Não dá
para parar, nem que seja para assimilar o momento. Só dá tempo para se mexer,
correr e incorporar o novo. O resto... Bem, o resto é resto.
Voltemos à mudança.
Eu sou uma toupeira! Com ajuda do
Giovane Lanza e do Thales Zabel, dois queridos, desmontei o guarda-roupa (com
uma certa dificuldade), carreguei móveis e coloquei tudo em um caminhão. Estava
um dia pra lá de quente, daqueles em que o suor queima a pele. Mas foi tudo bem
rápido: a Ela tem muita coisa, mas tudo coisa leve. Fizemos uma
“formiguinha” (fulano A passa para fulano B, que alcança para fulano C, e assim
vai) e o negócio rendeu. Me vi adulto, acompanhando a Dani na imobiliária,
instalando as coisas no apê novo (minúsculo, bonito e iluminado, como deveria
ser), falando com porteiro, com carregador... Foi bacana. Imaginei quantas
vezes passarei por isso novamente. Mas, acima de tudo, com quem passarei por tudo
isso. Eis o que mais importa. A companhia sempre vale mais do que a viagem (ai,
como tô pseudointelectual).
O Pr Lanza ainda vai ficar muito
tempo na minha memória; um constante lembrete de como viverei. Sempre de malas:
a serem feitas ou desfeitas.
Pastores vivem num perpétuo
gerúndio. Eles jamais param, sossegam, estacionam no tempo. Jamais se permitem
estar no topo, no clímax, no fim da carreira. Eles sabem que o simples fato de
haver necessidade de se ter pastores já evidencia que nada está encerrado e,
portanto, há ainda coisas a se fazer. Ignorar essa urgência seria alienar-se, e
isso – sim – seria abdicar da vida (eterna), deles e dos outros. Há sempre
coisas novas a fazer, em novos locais, com novas pessoas e situações. Para o
pastor, a vida terrena é altamente transitória, fluída conforme a necessidade.
Tudo é passível de mudança, e nada por aqui é digno de apego. Só não seguem
essa lógica as coisas celestiais. Somente elas são definitivas e dignas de real
afeição.
Pastores vivem num perpétuo
gerúndio. Eles e os atendentes de telemarketing.
