Ano novo tem dessas. Nessa época, todos somos
tentados a fazer listinhas de resoluções para o ano seguinte. É assim: você faz
uma relação com seus desejos e promessas (coisa pouca, para não ter muitos
arrependimentos ao final dos 365 dias). Nessa lista, coloca tudo aquilo que
quer fazer diferente no ano vindouro. Há quem tenha escolhido redigir esse
abençoado documento na reta final de 2014. E há quem tenha deixado essa
oportuna tarefa para o começo de 2015 (esses, retardatários, já estão a meio
caminho andado do fracasso. Beijos.). É sempre a mesma melação: passa o natal e
você já vem no embalo, cheio de sentimentos positivos e muita pretensão. Jura
que, se não salvar o mundo, pelo menos a si mesmo salvará. E daí surge a
bendita listinha.
O grande lance é que quase sempre ela é inútil.
Corrijo o que disse no parágrafo anterior. Talvez
inútil mesmo seja o ato de escrever uma listinha.
Corrijo mais uma vez o que disse. Inútil
provavelmente seja o autor da lista.
Prossigamos e convenhamos: há realmente uma certa
pretensão a pairar na cabeça de quem escreve uma lista de resoluções. A pessoa
jura que está ganhando tempo, que está se antecipando ao ano vindouro. Vai
começar já no pique, sem perder a oportunidade de acertar os ponteiros. Aí ela
vem e escreve a lista, toda cheia de boas intenções e lota o papel de suas
futuras necessidades. E o que aparece nos itens? Variadas necessidades de 2014,
2013, 2012, 1995 e por aí vai. É emagrecer, é ler mais, é passar mais tempo com
a família (e menos tempo com a TV, clichê dos clichês), é fazer mais exercícios
físicos, meditar mais, brigar menos... Nem é preciso continuar. E a pessoa se
sentindo a antecipada – a proativa – fazendo de seu 2015 um 2003 recauchutado.
A listinha de ano novo não é um manifesto de antecipação; é, antes, um atestado
de atraso. E você aí, jurando que está começando um ano direito. Talvez esteja
apenas terminando um ano errado.
Sejamos conscientes: a listinha só deixa ainda mais
explícitas duas verdades: 1) todos os anos, deixamos todas as grandes mudanças
para mais tarde, até o ano acabar e arranjarmos um novo prazo (criativamente,
veja só, mais um ano); 2) o ser humano é mesmo um traste: vive de repetir os
mesmos erros e as mesmas inúteis aspirações.
Todo ano, a mesma espera (somos o povo da esperança,
mas olha, precisamos rever isso aí). As grandes decisões têm ficado
invariavelmente para o fim. Para o “momento ideal”. Até parecemos incrédulos,
vivendo de hoje, aspirina, seleção natural e pés de coelho. Torcendo pra que
tudo acabe bem, mesmo tendo começado errado.
E sempre – sempre! – esperando um momento ideal, no
curso natural das coisas, para agir. Cheios de promessas, ambição, expectativa.
Mas vazios de entendimento e, principalmente, vontade.
O que determina o momento ideal não é a ocasião, mas
a necessidade. A necessidade é a oportunidade.
Hoje, quem sou eu para falar isso, talvez você
precise de um recomeço, de noites de sono, de consciência limpa. Talvez sua
rotina em 2014 tenha sido uma coleção de erros espalhafatosos e conscientes
(pecados que lhe dão vergonha, porém, cada um que fica sabendo do que você fez,
acha o máximo e fica com inveja, o que desafia sua capacidade de
arrependimento). Talvez você tenha medo de mudar, porque não quer ser odiado,
perseguido, ficar pobre, ou sem amigos (ou simplesmente porque você é frouxo,
mesmo). Talvez seu orgulho e prepotência façam você se perceber como alguém a
princípio irresistível, tipo essas pessoas que têm um centro gravitacional
próprio. E você, por conta disso, conclua que se quiserem aceitá-lo, e isso
serve até para Deus, que seja desse jeito (se esse for seu caso, pare de se
sentir a Gabriela. Não, você não é ela).
Ou talvez sua rotina corrida, ou o feed
de notícias, simplesmente abafe seus erros e o clamor da sua consciência.
Calma! Nessa vida, tudo tem jeito. Aqui está o momento, porque aqui está a
necessidade. E se ela é perene, perpétua feito as suas necessidades para 2015,
ela só pode ser urgente. Hoje, Deus quer reescrever a sua história. Porque se Ele
não salvar você, o “salvar toda a humanidade” já não terá o mesmo sentido, a
mesma amplitude. Quer repartir com você a vitória que Ele mesmo já conseguiu,
lá atrás, e que é tipo melancia: dá para todo mundo.
Comece 2015 direito. Não coloque sua salvação na
lista de resoluções para o ano novo. Não deixe pra depois o que é urgente.
Ano novo (tábula rasa), vida nova.
